|
Quem vive nas grandes
cidades brasileiras já se acostumou a assistir a
seguinte cena no trânsito: uma pista da avenida
interditada, causando congestionamento, logo ouve-se
o som da sirene de uma unidade de resgate, o
motorista ou pedestre vê um corpo estendido no chão
e ao lado uma motocicleta
estatelada. Ali está
mais um motociclista profissional acidentado, ou
como é mais conhecido um motoboy.
 |
Não existem
estatísticas oficiais sobre o número de
motoboys vítimas de acidentes de trânsito. Na
cidade de São Paulo, é elevadíssima a
freqüencia deste tipo de
acidente.Estima-se que aconteça a morte de um
motoboy a cada 36 horas no caótico trânsito
paulistano, chegando a casa das 250 mortes
anuais. O Sindicato dos Mensageiros e
Motociclista do Estado de
São Paulo registra a existência de cerca
de 250 mil motoboys na capital
paulista.
| A grande maioria é
constituída de jovens, na faixa etária entre 18 e 25
anos,o que eleva as estatísticas sobre o número de
jovens mortos na cidade, principalmente do sexo
masculino.
Quais os fatores que estariam
levando estes jovens a perderem suas vidas no trânsito
?
Na visão dos organizadores da produção
e dos profissionais de segurança do trabalho, os
acidentes são resultado dos atos de imprudência,
negligência e imperícia dos trabalhadores, não
procurando saber o que há por trás deste
comportamento e qual a relação com o trabalho,
resultando na falta de prevenção, pois as investigações
e análises de acidentes param onde deveriam começar
.
A pesquisa desenvolvida pelo pesquisador
da Fundacentro, Engº Eugênio Diniz, ao longo de 3
anos, partiu exatamente deste ponto, procurando
encontrar na organização do trabalho e nas relações de
trabalho, explicações para o comportamento de risco .Por
outro lado, Diniz também procurou identificar elementos
na atividade ( como o trabalhador executa o seu
trabalho, diante das circunstâncias vivenciadas) para
elaborar propostas que pudessem tentar solucionar o
problema sem contudo inviabilizar a produção
.
Correndo contra o
tempo
A pesquisa mostrou que a
atividade de motoboy sofre diversas formas de pressão.
Além da corrida contra o tempo, existe a elevada demanda
de serviço, a qual a categoria se encontra submetida.
"Os motoboys recebem várias tarefas simultaneamente
com o tempo disponível para atender o cliente,
menor que aquele que foi negociado entre este e a
empresa" , salienta Diniz .
Para piorar a
situação, constatou-se nas empresas pesquisadas que os
serviços de alguns motoboys são locados para mais de uma
empresa-cliente, simultaneamente, para prestar serviço
por hora .
A remuneração por tarefa é
outo fator importante . Quando os motoboys dispõem
de maior margem de liberdade, eles procuram obter
agilidade e, conseqüentemente, um ganho financeiro
maior, dividindo tarefas com os seus colegas, fazendo o
planejamento das rotas, elaborando controle temporal das
tarefas e trabalhando longas jornadas, em média 13 horas
por dia de segunda a sexta-feira e mais cerca de seis a
sete horas nos fins de
semanas .
Consciência do
risco
É como os motoboys serem
chamados de " loucos" pelos outros motoristas e
pedestres que circulam pelas ruas e avenidas das
cidades. Não é para menos, pois estes motociclistas
parecem, muitas vezes, mais malabaristas do asfalto . Na
pesquisa, os motoboys demonstraram ter consciência
dos riscos da sua profissão, mas mesmo assim desobedecem
as Leis de Trânsito.
A razão reside nas
constatações já apresentadas acima : Pressões de
tempo e as Elevadas demandas
.
Evitando acidentes de
trabalho
Concluindo a pesquisa, o Engº Eugênio Diniz
elaborou algumas propostas para melhorar as condições de
trabalho dos motoboys, estas baseadas no cotidiano
destes profissionais.
Destacamos algumas
destas propostas:
* Promover, periodicamente, cursos
internos que incluam aulas práticas sobre planejamento
temporal e elaboração de rotas. Essas orientações devem
ser feitas pelos próprios motoboys que desenvolveram
tais competências. Mapas podem ser utilizados para
simulações de deslocamentos e para análise posterior dos
grupos.
* Promover reuniões periódicas
para que os motoboys possam transmitir aos colegas as
competências desenvolvidas e mobilizadas para evitar
acidentes. Criar espaços que permitam aos motoboys
relatar e analisar a experiência vivida no "Quase bate
toda hora".
* Analisar
conjuntamente ( gestores de produção e motociclistas
) os acidentes ocorridos, procurando identificar
os fatores que provocaram a ruptura do compromisso
cognitivo do trabalhador.
* As demandas de
serviços de cada motoboy e o tempo prescrito devem levem
consideração a experiência ( quantidade de eventos
vivenciados ) individual e os determinantes
não controláveis ( chuva, pré e pós-feriado, final do
ano, execução de servições em regiões onde as ruas e
numerações apresentam problemas, etc ).
* Mobilizar mais de um motociclista para
tarefas com prazo crítico que envolvam operações em
instituições e repartições. Enquanto um se desloca até o
cliente para receber a demanda, o outro se dirige à
repartição para ficar na fila ou pegar senha
.
* Dotar o setor de telemarketing de
informações de disponibilidade de motociclistas para
executar as tarefas. O tempo de atendimento negociado
com o cliente deve variar de acordo com a
disponibilidade dos motociclistas no momento do pedido.
* Garantir ao motoboy que
presta serviço por hora, autonomia para negociar a sua
demanda de serviço com o cliente. Informar às empresas
clientes que contratem os serviços por hora, já que elas
também são juridacamente responsáveis pela segurança e
saúde dos terceirizados.
Engº Eugênio Paceli Hatem
Diniz e-mail: eu.cemg@terra.com.br
Fonte: Jornal
Segurança e Saúde no
Trabalho
|