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Para os estudiosos da Ergonomia, o
ambiente do restaurante apresenta-se como campo
vasto para pesquisa. Excesso de calor, ritmo
acelerado de trabalho, atividades repetitivas e
equipamentos grandes, são alguns dos fatores que
podem gerar agravos à saúde dos profissionais que
atuam nestes
locais.
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O
assunto é referente a matéria
do Prof. Mario Cesar R. Vidal, professor da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ) e autor do
livro Ergonomia na empresa: útil, prática e aplicada e
das professoras Maria de Fátima Ferreira Queiroz, da
Universidade Metodista de São Paulo, Mestre e Doutoranda
em Saúde Pública-USP e Adriana Rodrigues Siqueira, do
Centro Universitário São Camilo, autoras do trabalho Os
Bastidores da Cozinha sob a Perspectiva da Saúde e do
Trabalho. .
INTRODUÇÃO
Sempre que pensamos em Ler/Dort, imediatamente
associamos à Ergonomia. Os nomes quase que se confundem
para o público leigo. Especialistas da área enfatizam
que Ergonomia é o estudo da situação de trabalho
enquanto que os DORT/ LER são lesões provocadas por
situações de trabalho prejudiciais que levam à
incapacidade temporária ou definitiva dos
trabalhadores
As
discussões sobre as DORT/LER têm mostrado a importância
do investimento em detecção de situações de risco
tentando eliminá-los, quando possível, ou minimizá-los,
quando não, concordando assim com a abordagem preventiva
na questão saúde ou doença.
As
professoras Maria de Fátima e Adriana desenvolveram seu
trabalho em um restaurante universitário, com o objetivo
de contribuir com a prevenção em DORT/LER nas atividades
de confecção de alimentos em cozinhas com
características industriais. Para tanto, observaram
postos de trabalho de acordo com uma abordagem
ergonômica, procurando entender como as exigências das
tarefas realizadas podem atuar como um fator de risco.
Elas
ressaltam que os processos para a preparação dos
alimentos em um restaurante com características de
cozinha industrial sofrem mudanças devido à introdução
de tecnologias que visam maximizar a produção. Os
processos manuais no preparo dos alimentos se mantêm
presentes e são intensificados na medida em que, para
acompanhar a modernidade social, há um grande número de
indivíduos alimentando-se fora do lar.
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O restaurante
analisado pelas professoras era responsável por
servir aproximadamente 3.000 refeições por dia,
sendo 2.300 no almoço e 900 no jantar, com um
total de 57 colaboradores. Os postos de trabalho
analisados foram os de cozimento de feijão e arroz
e pré-preparo da salada
. | Os problemas
encontrados nesse local podem servir de referência para
inúmeros outros restaurantes e auxiliar na observação
dos pontos críticos de risco e, consequentemente,
contribuir para busca de soluções.
No
universo analisado, assim como inúmeros outros ambientes
de cozinha, pode-se concluir que vários fatores podem
estar concorrendo para o aparecimento de Distúrbios
Osteomusculares Relacionados ao Trabalho/Lesões por
Esforços Repetitivos (DORT/LER) neste tipo de atividade,
desde fatores ligados aos aspectos físicos e ambiente de
trabalho até aqueles ligados à organização do trabalho e
tarefas realizadas.
A
identificação destas situações é um ponto de partida
para modificações nos postos de trabalho. As mudanças
são fundamentais para proporcionar um trabalho com maior
conforto e menor desgaste para o trabalhador, levando a
uma melhor produtividade.
Para
Mario Vidal, é necessário conhecer a atividade das
pessoas naquele local, com as particularidades e
possibilidades de cada situação, para elaborar um
projeto capaz de adaptar a situação de trabalho para as
pessoas que realizam as atividades.
Com
isso, não é necessário o trabalho de convencimento junto
aos funcionários uma vez que a ergonomia tem como
fundamento a participação e a integração deles em seu
processo. “Isso não ocorre por demagogia ou ideologia, é
que não há outra maneira de se trabalhar. Neste sentido
o delineamento do projeto, o treinamento de pessoal e a
organização do trabalho, se combinam dialogam e
convergem para resultados, dentro do que chamamos Ação
Ergonômica”, enfatiza o professor.
Projetos e
equipamentos
A
adequação antropométrica que estabelece parâmetros
dimensionais é certamente um fator fundamental para os
projetos de cozinhas. Vidal explica “Esta normatividade
é possivel. A Divisão de Ergonomia INT/RJ possui padrões
antropométricos brasileiros aplicáveis para estes casos.
Mas sem a organização, o escalonamento de tarefas, uma
filosofia que busque evitar o atropelo da proximidade
das horas críticas, o esforço dimensional pode se tornar
inócuo”.
A
adoção destas normas não é fácil, principalmente em um
país como o Brasil, onde há uma grande variação de
altura das pessoas. Na verdade, segundo os
especialistas, não existe altura ideal, o ideal seria
fazer o ajuste para cada usuário através de regulagens
de alturas. “Colocar a bancada na altura média consegue
a façanha de ser desconfortável para toda a população de
trabalhadores. No meu laboratório os postos
individualizados são inteiramente customizados (adaptado
ao ocupante) e nos locais de uso comum estamos colocando
regulagens individualizáveis” esclarece Vidal.
No
caso dos equipamentos de cozinha existem vários
utensílios de design muito superior aos convencionais
para tarefas específicas como facas especiais para
picotar ervas, fatiadores etc. Seu efeito como
contribuidor às boas práticas é real e necessário, mas
não se pode sustentar que sejam suficientes. Nada
substitui uma boa organização do trabalho e sua ausência
é sentida desde as cozinhas mais equipadas às mais
rudimentares.
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De maneira
geral, os equipamentos “vilões”
dentro de uma cozinha, podem ser relacionados da
seguinte forma: Em primeiro lugar
os indutores de manuseio de cargas. Fogões e
fornos estão na alça de mira de um ergonomista,
pois provocam posturas desequilibradas ou requerem
malabarismos para deslocar objetos
quentes. |
Em segundo lugar, deve-se considerar o
processo de higiene e limpeza, que para os especialistas
é o processo eixo de uma cozinha. Neste sentido há que
desenvolver o que hoje existe muito pouco, que são
equipamentos de agilização desta atividade. Essa idéia
deve permear a cozinha como um todo, desde o projeto da
mesma, na escolha dos equipamentos cujos cantos vivos ou
inacessíveis tornam penosa a tarefa principal que é a
higiene, assepsia e limpeza do espaço culinário. “Se as
boas práticas se orientam para higiene e limpeza, o que
autoriza os fabricantes em ignorá-las?” questiona Vidal.
Outro fator a ser
desenvolvido nos restaurantes são os equipamentos que
facilitem o transporte de cargas ou levantamento de
pesos. Sobre este assunto, o professor diz: “Desconheço
equipamentos de auxílio ao manuseio de cargas em
cozinha, exceto os ganchos de carcaças em alguns
açougues e em pouquíssimas cozinhas. Se aparecer alguém
interessado nisso, gostaria bastante de desenvolver
protótipos de equipamentos e de instalações ergonômicas
nesta perspectiva.”
Desconforto Térmico
Conforme observaram as professoras Maria de Fátima e
Adriana em sua pesquisa, outro fator, característico de
grandes cozinhas que pode acarretar grandes prejuízos a
saúde é o desconforto térmico, pois esses ambientes
apresentam temperaturas elevadas e umidade excessiva. A
visibilidade também fica prejudicada pela presença de
vapor, proveniente dos caldeirões e o piso torna-se
escorregadio devido à presença de óleos utilizados
durante o cozimento dos alimentos e, posteriormente,
pelo sabão utilizado na lavagem da cozinha. Estas
situações podem atuar como fator de risco para a
ocorrência de acidentes, exigindo do trabalhador aumento
da vigilância e atenção durante a realização das
tarefas.
Os
especialistas concordam que a questão da temperatura
talvez seja das mais difíceis de resolver, pois são
decorrentes da conservação, não apenas em termos
biológicos, mas também, organolépticos, palavra técnica
que significa a manutenção do sabor ao longo da
conservação.
“A
saída é mais uma vez a organização do trabalho, já que
mais grave do que expor um cidadão a um gradiente
térmico de 30, 40 graus é fazê-lo de forma abrupta,
muito rápida. Para que a passagem por uma câmara de
aclimatação seja possivel, o funcionário não pode estar
premido pelo tempo, trabalhando ‘para ontem’ . Mesmo se
colocarmos pontas de acionamento programado, como em
alguns bancos e salas limpas, a pessoa apressada pode
não sofrer de hipotermia, mas intensificará muito o seu
stress pelo atraso no qual já se encontra” reflete o
professor.
Soluções
Para
encontrar soluções que resolvam ou minimizem problemas
relacionados aos DORT/LER é necessário conhecer o
processo de trabalho. Uma medida que pode ser adotada
são as pausas durante as jornadas. Os rodízios também
podem contribuir para que o trabalhador não faça o mesmo
tipo de movimento durante toda a jornada de trabalho.
Não
existe uma medida padrão a ser seguida. Uma alternativa
que as professoras Maria de Fátima e Adriana utilizaram
em seu trabalho e que se apresentou eficiente foi a
formação de “Grupos de reflexão sobre o Trabalho” com
funcionários de cozinha e seus chefes. A experiência foi
excelente, pois as soluções vieram dos próprios
trabalhadores.
A
redução das cargas de trabalho relativas a movimentos
repetitivos, esforços e posturas, aliado a medidas que
tornem o trabalho menos estressante e mais agradável
para os trabalhadores irá trazer uma redução
significativa neste processo de adoecimento.
Quebrando
tabus
Para o público leigo,
ginástica é remédio para tudo, mas no caso da prevenção
das Dort/LER, há controvérsias. Os especialistas deixam
claro que o conceito é o da existência de pausas
compensatórias planejadas num processo de atividade.
“Nessas pausas pode-se até realizar exercícios mas não
necessáriamente. Quando os exercícios se verificam
pertinentes, eles produzem um bom resultado, eu posso
testemunhar a favor disso.
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Na verdade muito
do sucesso da chamada ginástica laboral deve-se
mais ao efeito de dinâmica de grupo do que a
validade técnica de atividades musculares
compensatórias.
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Antes de buscar um profissional que possa aplicar
exercícios físicos adequados, é preciso estudar a
situação e organizar trabalho, pausas e equipamentos,
para então analisar a pertinência de algumas atividades
compensatórias.
Neste sentido um fisioterapeuta com especialização
em Ergonomia pode ajudar. Mas especialização em
Ergonomia representa um a dois anos de atividade em
pós-graduação, não se trata de gente apenas com
conhecimentos rudimentares como a maioria do existe hoje
no mercado! Sem uma formação sólida em Ergonomia
trata-se de charlatanismo”, alerta Vidal.
Fatores de
risco
- Trabalho automatizado onde
o trabalhador não tem controle sobre suas atividades
(caixa, digitador, entre outros);
- Obrigatoriedade de manter
o ritmo acelerado de trabalho para garantir a
produção;
- Trabalho fragmentado, onde
cada um exerce uma única tarefa de forma repetitiva;
- Trabalho rigidamente
hierarquizado, sob pressão permanente das chefias
- Número inadequado de
funcionários;
- Jornadas prolongadas de
trabalho, com freqüente realização de horas extras;
- Ausência de pausas durante
a jornada de trabalho;
- Trabalho realizado em
ambientes frios , ruidosos e mal ventilados;
- Mobiliário inadequado
(cadeiras, mesas etc.), que obriga a adoção de
posturas incorretas do corpo durante a jornada de
trabalho.
Prevenção de
LER/DORT
O
método mais efetivo para a prevenção da DORT/LER é o
desenvolvimento de controles técnicos para identificar
os riscos ergonômicos.
Em
síntese, a prevenção da DORT/LER baseia-se em estudos
para análise ergonômica do trabalho e na adoção de
medidas relativas a:
- Tempo de exposição:
introdução de pausas para descanso, redução da jornada
de trabalho ou do tempo de trabalho na atividade
geradora de DORT/LER
- Alterações no processo e
organização do trabalho: modificações visando a
diminuição da sobrecarga muscular gerada por gestos e
esforços repetitivos, mecanizando ou automatizando o
processo, reduzindo o ritmo de trabalho e as
exigências de tempo, diversificando as tarefas.
- Adequação de máquinas,
mobiliários, dispositivos, equipamentos e ferramentas
de trabalho às características fisiológicas do
trabalhador, de modo a reduzir a intensidade dos
esforços aplicados e corrigir posturas desfavoráveis
na realização de gestos e esforços repetitivos.
- Treinamentos e exercícios
posturais ergonômicos.
De acordo
com Mario.C.R.
Vidal, autor do livro Ergonomia na Empresa:
útil, prática e aplicada. (www.editoravirtualcientifica.com.br) tem-se:
1. O que significa a ergonomia para o
trabalho?
Ergonomia no trabalho é
pleonasmo, já que ergo significa trabalho. As aplicações
de alguns metodos e técnicas de Ergonomia fora do
contexto e dos ambientes de trabalho podem ser
consideradas como exceções e não como a regra. Bem, isso
dito a explosão da demanda por Ergonomia tem a ver com
diversos fatores que exponho em meu livro Ergonomia na
Empresa: útil, prática e aplicada Crescimento da
escolaridade, Impactos normativos e regulamentações,
aumento da complexidade do quotidiano ( o cozinheiro
,moderno deve ter noções de programação...) mas
sobretudo pelo fato de que a Ergonomia dá resultado onde
outras abordagens falharam. A Ergonomia resolve
problemas da atividade das pessoas a partir de sua
realidade concreta e não mediante imposições de soluções
prontas ou prejulgamentos sobre as manifestações de
problemas. A ergonomia é essencialmente proativa e
construtivistas, e por isso se sobressai com relação a
posturas reativas e conformadoras.
2 - Quais os tipos de LER mais comuns em
trabalhadores de cozinhas?
Há que se entender que a LER
não é uma doença em si, mas uma denominação hoje
superada do conjunto de sindromes chamado Doenças
OsteoMusculares Relacionadas ao Trabalho . Essas
manifestações podem ser de varios tipos - afetação do
tunel carpial, descompensação na coluna cervical,
bursites nos ombros e cotovelos, etc. Cada pessoa pode
ter manifestações especificas diferentes devido a
fatores pessoais, tal como compleição fisica, sexo,
hábitos pessoais e perfil psicológico e social. O que
existe de comum é o tipo de exigência no trabalho e de
dificuldade em atendê-los. Esse aspecto comum à origem
das diferentes manifestações individuais não pode ser
evidenciado num exame clinico ou complementar, requer
também o estudo da situação de trabalho e é ai que entra
a Ergonomia.
3 - Existem equipamentos que podem
minimizar esses problemas?
A mao que toca um violao, se
for preciso faz a guerra, dizia o Marcos Valle.
Equipamentos em si nao resolvem nada fora de uma
especificação de uso e manuseio, que é um dos resultados
possiveis da Ação ergonomica. Dizer que o equipamento X
resolve alguma coisa é mais ou menos a mesma coisa que
dizer compre uma AlfaRomeo e acabe com os problemas de
segurança no transito. Claro que este veiculo-icone com
seus ABS, airbags, computadores de bordo e outras
milongas mais é bastante superior ao inseguro Fusca, mas
tudo depende muito do motorista..Agora num carro com a
direção defeituosa e sem pastilhas de ferio, o risco é
muito maior. No caso dos equipamentos de cozinha existem
vários utensilios de design muito superior aos
convencionais para tarefas especificas como facas
especiais para picotar ervas, fatiadores etc. Seu efeito
como contribuidor "as boas praticas é real, necessário
mesmo, mas não se pode sustentar que sejam suficientes.
Nada substitui uma boa organização do trabalho e sua
ausencia é sentida desde as cozinhas mais equipadas "as
mais rudimentares.
4 - Em
projetos de cozinhas o que deve ser observado para
evitar essas doenças?
Coisas do tipo: altura de
bancadas, etc.A adequação antropometrica que estabelece
parametros dimensionais é certamente um fator sine qua
non. Esta normatividade é até possivel, o pessoal da
Divisão de Ergonomia INT/RJ possui padroes
antropométricos brasileiros aplicáveis para estes casos.
Mas sem a organização, o escalonamento de tarefas, uma
filosofia que busque evitar o atropelo da proximidade
das horas criticas, o esforço dimensional pode se tornar
inócuo.
5 - No caso de altura de bancada, como
determinar a ideal, principalmente no caso do brasileiro
em que a variação de altura das pessoas é
grande?
Problemâo! Não existe altura
ideal, o ideal seria ajustar a altura para cada usuário
através de regulagens de alturas. A emnos que em uma
cozinha o executante de uma operação mude a cada minuto,
o que não parece razoável, deve-se pensar em adaptações
localizadas. Colocar a bancada na altura média consegue
a façanha de ser desconfortável para toda a população de
trabalhadores. No meu laboratorio os postos
individualizados são inteiramente customizados (adaptado
ao ocupante) e nos locais de uso comum estamos colocando
regulagens individualizaveis.
6 - Quais os
procedimentos de funcionários que podem contribuir para
evitar maior incidência de LER?
E como um projeto pode
contribuir para induzir um funcionário a trabalhar de
forma mais adequada? Há que se conhecer a atividade das
pessoas, naquele local, com as particularidades e
possibilidades de cada situação. Assim como não existe
uma teoria geral das coisas ou metodos universais para
se viver bem, fica dificil falar nestes termos. O
projeto de funcionamento - e sempre deve existir um -
deve estabelecer as boas praticas dentro do principio
maior da Ergonomia, que é adaptar a situação de trabalho
para as pessoas que realizam as atividades. Essa
adequação, se obtida, elimina a LER, se preferires assim
chamar as DORT´s. Agora não se precisa induzir ninguém.
A ergonomia tem como fundamento a participação e a
integração de pessoas em seu processo de projeto. E isso
não ocorre por demagogia ou ideologia, é que não há
outra maneira de se trabalhar. Neste sentido o
delinemanto do projeto, o treinamento de pessoal e a
organização do trabalho, se combinam dialogam e
convergem para resultados, dentro do que chamamos Ação
Ergonomica. FAZENDO JUNTO, INTEGRANDO SUGESTÕES
- E UMA BOA PARTE PARTE DAS SUGESTÕES DO PESSOAL É
EXCELENTE - A PESSOA SE CONSCIENTIZA, ATE PORQUE PORQUE
ISSO É UM PROCESSO EDUCATIVO. Quem aprende
certo, faz correto. Claro que se não houver vontade
administrativa de treinar as pessoas corretamente, nem a
Ergonomia pode dar jeito...
7 - Acho que
não é de sua área, talvez você conheça algum
profissional que possa dar idéia de alguns exercícios
adequados para quem trabalha em cozinhas.
O pessoal acha que exercicios
são o abracadabra da moda. Veja bem, o conceito é o da
existencia de pausas compensatórias planejadas num
processo de atividade. Nessas pausas pode-se até
realizar exercícios mas não necessáriamente. Quando os
exercicios se verificam pertinentes, eles produzem um
bom resultado, eu posso testemunhar a favor disso. Mas
toda a ciencia da Educação fisica não pode se
transformar em uma solução universal a procura de
problemas especificos. Na verdade muito do sucesso da
chamada ginastica laboral é muito mais o efeito de
dinamica de grupo do que a validade tecnica de
atividades musculares compensatórias. Antes de verificar
que profissional poderia dar idéia de exercicios
adequados, é preciso estudar a situação e organizar
trabalho, pausas e equipamentos, para entao analisar a
petrinencia de algumas atividades compensatórias, Neste
sentido um fisioterapeuta com especialização em
Ergonomia pode ajudar. Mas especialização em Ergonomia
representa um a dois anos de atividade em pós-graduação
, não se trata de gente apenas com conhecimentos
rudimentares como a maioria do existe hoje no mercado!
Sem uma formação solida em Ergonomia trata-se de
chralatanismo.
8 - Quais os
equipamentos "vilões" dentro de uma cozinha, ou seja que
mais podem causar danos à saúde do
funcionário?
Lá vem voce com suas
perguntas para uso genérico... Vamos lá, te respondo com
uma outra forma de abordar o problema. Em primeiro lugar
os indutores de manuseio de cargas. Fogoes e fornos
estão na alça de mira de um ergonomista, pois ou
provocam posturas desequilbradérrimas ou requerem
malabarismos para deslocar os quentissimos objetos. So
que o processo eixo de uma cozinha, a meu ver não é nem
a cocção, nem a preparação ou armazenamento, é o
processo de higiene e limpeza. Neste sentido há que
desenvolver o que hoje existe muito pouco, que são
equipamentos de agilização desta atividade, ate mesmo
instalações especificas como a cozinha da vovó que
possuia um beiral em torno da pia, já que ela tinha
manias de lavar a pia o tempo todo, Acontece que vovó
estava correta, uma pia se la va o tempo todo. So que
essa ideia deve pérmear a cozinha como um todo, e isso
desde o projeto da mesma, na escolha dos equipamentos
cujos cantos vivos ou inacessiveis tornam penosa a
tarefa principal que é a higine, assepsia e limpeza do
espaço culinário. Se as boas pratocas se oprientam para
higiene e limpeza, o que autoriza os fabricantes em
ignorá-las ?
9 - O fato
de trabalharem em ambiente quente e sujeitos a mudanças
térmicas, pode ser considerado também como uma
preocupação para profissionais que estudam com
ergonomia?
Sim e talvez das mais
dificeis de resolver a termo, pois as temperaturas são
decorrentes da conservação, não apenas em termos
biologicos, mas també, organolepticos, palvra técnica
que significa a manutenção do sabor ao longo da
conservação. Como não é possivel esquentar o freezer,
talvez uma solução seria a de refrigerar a conzinha, o
que faria de fornos e fo~goes coisas similares "as
capelas dos laboratórios quimicos, e finalemnet sem
resultados. As tecnologias de resfriamento rapido, cada
vez mais se reproduzindo seriam alternativas, mas elas
não elimnam este problema em sua fonte. Nossa saida é
mais uma vez a organização do trabalho, já que mais
grave do que expor um cidadão a um gradiente termico de
30, 40 graus é fazê-lo de forma abrupta, muito rapida.
Pra que a passagem por uma camara de aclimatação seja
possivel, o funcionario não pode estar premido pelo
tempo, trabalhando "para ontem". Mesmo se colocarmos
pontas de acionamento programado, como em alguns bancos
e salas limpas, a pessoa apressada pode não sofrer de
hipotermia, mas intensificara nuito o seu stress pelo
atraso no qula ja se encontra. Se essa situação for
estrutural decorrente daquela organização, não tenho a
menor duvida que o temporizador tera um defeito cujo
conserto não seja viavel. Ou sera sumariamente retirado
em nome da eficiencia e da pratica, agravando um
problema ao invés de resolvê-lo.
10 - Quais
as alternativas em equipamentos que diminuem a
necessidade de o funcionário carregar
peso?
Ai começa a ficar mais
dificl. Mas é bem verdade que se retirarmos os gancho de
carcaças em alguns açouges e em pouquissimas cozinhas,
nunca vi equipamentos de auxilio ao manuseio de cargas
em cozinhas. Acredito que poderia ser uma maneira muito
interessante de transportar do fogao ou dos fornos para
os carrinhos de trasporte que ainda não incorporaram as
maravilhas da tração eletrica como noscampos de golfe.
Se aparecer alguém interessado nisso, gostaria bastante
de desnvolver protótipos de equipamentos e de
instalações ergonomicas nesta perspectiva. Se souber de
algum site interessante sobre o tema, por favor,
coloque. Bom, existe o nosso site www.gente.ufrj.br que possui links para todo o mundo da ergonomia
nacional e internacional. Será um prazer receber a
visita de seus leitores.
Resumo do trabalho - Os Bastidores da
Cozinha sob a Perspectiva da Saúde e do Trabalho
- realizado pelas professoras Maria de Fátima Ferreira Queiroz e
Adriana Rodrigues
Siqueira
O
mundo do trabalho tem sofrido intensas mudanças nos
últimos anos, com a introdução de novas tecnologias que
se refletem na aceleração do ritmo do trabalho, mudanças
na organização do modo de produção, surgimento de novas
profissões em detrimento de outras, entre outras
consequências.
As
mudanças vêm ocorrendo e não estão delimitadas a
determinado ramo industrial, mas abrangendo vários tipos
de atividades em ramos industriais diversos. A
intensificação no ritmo de trabalho, questões
relacionadas a sua organização do trabalho,
repetitividade de movimento em uma mesma tarefa,
permanência em posturas fixas, por exemplo, podem agir
como situações de risco às quais os trabalhadores estão
submetidos podendo gerar agravos à saúde, entre estas os
conhecidos Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao
Trabalho/Lesões por Esforços Repetitivos (DORT/LER).
Os
DORT/LER são lesões que levam à incapacidade temporária
ou definitiva dos trabalhadores além de trazer altos
custos para as empresas onde estas estão presentes.
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A preparação dos
alimentos em um restaurante com características de
cozinha industrial é um dos serviços de
alimentação que também sofre mudanças devido à
introdução de tecnologias que visam maximizar a
produção.
|
Por outro lado, atividades manuais no preparo dos
alimentos se mantêm presentes e também intensificadas
para acompanhar a modernidade social onde um grande
número de indivíduos sem alimentam fora do lar.
As
discussões sobre as DORT/LER têm enfatizado a
importância do investimento em detecção de situações de
risco tentando eliminá-los, quando possível, ou
minimizá-los, quando não, concordando assim com a
abordagem preventiva na questão saúde/doença.
Tentando contribuir com a prevenção em DORT/LER nas
atividades de trabalho na confecção de alimentos em
cozinhas com características industriais desenvolvemos
um trabalho em um restaurante universitário. Foram
realizadas observações de postos de trabalho de acordo
com uma abordagem ergonômica, onde se procurou entender
como as exigências das tarefas realizadas podem atuar
como um fator de risco.
O
restaurante analisado era responsável por servir
aproximadamente 3000 refeições por dia sendo 2300 no
almoço e 900 no jantar, com um total de 57
trabalhadores. Os postos de trabalho analisados foram os
de cozimento de feijão e arroz e pré-preparo da salada.
Os
problemas encontrados nesse local podem servir de
referência para inúmeros outros restaurantes e auxiliar
na observação dos pontos críticos de risco e,
consequentemente, contribuir para busca de soluções.
COZIMENTO
No
restaurante analisado, os alimentos eram cozidos em
grandes caldeirões e o trabalho realizado sempre pelos
mesmos trabalhadores, em postura em pé, e sem rodízio de
pessoal. O cozimento era elaborado em um salão, cozinha,
especifico para este fim, com seis caldeirões de
cozimento.
Nesta situação foram analisados os fatores de riscos
relacionados aos aspectos físicos e o ambiente de
trabalho. O espaço entre os caldeirões, por exemplo, era
pequeno dificultando a tarefa de limpeza dos mesmos. Os
carrinhos para armazenamento dos alimentos cozidos e os
que abasteciam os caldeirões ficavam mal posicionados,
dificultando a circulação, podendo provocar acidentes.
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Outro fator,
característico de grandes cozinhas e que pode
acarretar grandes prejuízos a saúde é o
desconforto térmico, pois esses ambientes
apresentavam temperaturas elevadas e umidade
excessiva, que são provenientes do vapor de água
quente emitido durante o cozimento dos alimentos.
A visibilidade também ficava prejudicada pela
presença de vapor, proveniente dos caldeirões e o
piso torna-se escorregadio devido à presença de
óleos utilizados durante o cozimento dos alimentos
e, posteriormente, pelo sabão utilizado na lavagem
da cozinha.
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Estas situações podem atuar como fator de risco para a
ocorrência de acidentes, exigindo do trabalhador aumento
da vigilância e atenção durante a realização das
tarefas.
Equipamentos e
Maquinários.
Os
caldeirões a vapor, existentes na cozinha analisada,
eram de aço inoxidável medindo 97,5 cm de altura e 97 cm
de diâmetro. As dimensões desse equipamento faziam com
que o funcionário adotasse posturas anti-naturais e
incômodas, com flexão anterior de coluna lombar e
lateral de coluna dorsal. Muitas vezes, para o
trabalhador conseguir alcançar o fundo do caldeirão era
necessário permanecer na ponta dos pés. A cada turno, os
funcionários desse local, lavavam seis caldeirões,
adotando posturas que podem ocasionar distúrbios
osteomusculares.
Durante o cozimento de alimentos os trabalhadores
utilizavam pás de polietileno e as movimentavam com
frequência, para que o cozimento ocorresse por igual. Os
movimentos realizados eram freqüentes, em determinado
ritmo e com elevação de ombro, extensão/flexão de
cotovelo sem apoio deste, e movimentos conjugados de
punho - extensão/flexão, desvios laterais e rotação.
Nessa atividade também era exigida a semi-flexão da
coluna lombar.
Fatores de Risco Relacionados à
Atividade e Tarefas
Geralmente, durante a execução da tarefa de cozimento os
trabalhadores realizavam semi-flexão do tronco conjugado
com levantamento de peso. Esta postura era adotada
devido a altura dos caldeirões. Além da adoção de
posturas anti-naturais na retirada do alimento dos
caldeirões, na cozinha analisada, o trabalhador também
realizava levantamento manual de carga, pois o carrinho
utilizado para transporte, quando cheio, atingia em
torno de 40 Kg e muitas vezes existia apenas um
cozinheiro disponível para fazer o levantamento.
Durante o cozimento do alimento, no local analisado
observou-se outras duas situações de sobrecarga: a
primeira, de membros inferiores, pois o trabalho era
realizado, o tempo todo, na postura em pé, e, a segunda,
de membros superiores, pois era necessário ao
trabalhador manter-se sempre com um membro elevado acima
dos ombros, desenvolvendo força durante a manipulação
dos alimentos nos caldeirões.
Devido às características observadas, e aqui descritas,
o trabalho é árduo e fisicamente penoso. As situações de
sobrecarga física durante toda jornada de trabalho
somam-se às condições de exposição ao calor e ao ruído,
além das exigências de agilidade, vigilância e percepção
para, de um lado, não se machucar (queimaduras, prender
as mãos com a tampa dos caldeirões, etc.) e, de outro,
garantir a qualidade do alimento.
Preparo da
salada
|

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Na área
destinada ao preparo de saladas vários fatores
podem levar a situações de risco. Nesse local eram
usados equipamentos cortantes (bandejas de
alumínio, facas), sendo necessário a proteção das
mãos com luvas adequadas a essas funções. No
restaurante analisado, não era usado esses
acessório, o que aumentava, consideravelmente, o
risco de cortes.
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Para cada tipo de corte existem facas específicas.
Quando as facas não são afiadas constantemente, os
trabalhadores acabavam exercendo força exagerada nas
tarefas de corte.
Organização do Trabalho
Na
cozinha analisada, a atividade não era realizada no
decorrer de todo o período de trabalho, mas de forma
concentrada em um período de trabalho determinado.
Quando começava o serviço de distribuição da
alimentação, geralmente havia necessidade de produzir
mais do que foi previsto e as tarefas apresentam
aceleração no ritmo de execução.
Não
existia pausas preestabelecidas no decorrer das tarefas
e o ritmo de trabalho era acelerado, o que pode
acarretar uma sobrecarga de trabalho e comprometer a
qualidade do produto. Esta sobrecarga poderá gerar
agravos à saúde dos trabalhadores.
As
tarefas exigiam um alto nível de atenção, por exemplo,
para não se cortar e controlar o horário que as saladas
tem que permanecer nos tanques.
Atividade e Tarefas
Os
trabalhadores de uma cozinha industrial permanecem em pé
durante a realização das tarefas, o que pode levar à
sobrecarga: circulatória dos membros inferiores e
ósteo-muscular da região lombar, sem apoio para membros
inferiores.
As
sub-tarefas de separar as folhas boas com as mãos,
cortar os talos com facas e colocar as folhas na pia
eram realizadas sem apoio para os membros superiores e
em um ciclo repetitivo. A repetitividade do ciclo é
caracterizado pelo uso dos mesmos grupos musculares em
mais de 50% da jornada e em algumas sub-tarefas o ciclo
de trabalho é menor do que 30 segundos.
Os
movimentos durante o trabalho eram realizados com adoção
de posturas extremas e anti-naturais, tais como: rotação
de tronco; flexão de ombro-acima de 30º; flexo-extensão:
de cotovelo, pescoço, tronco, punho com desvios ulnar e
radial; prono-supinação de antebraço e punho. Também
ocorria a adoção de posturas agachadas por solicitação
das tarefas.
Ainda nessa atividade, durante a execução da tarefa de
lavagem e assepsia das folhas o contato constante com
água fria provoca uma vasoconstrição da área do contato,
diminuindo a nutrição dos tecidos desta região, podendo,
associado a outros fatores, levar a lesões
músculo-esqueléticas.
No
universo analisado, assim como inúmeros outros ambientes
de cozinha, pode-se concluir que vários fatores podem
estar concorrendo para o aparecimento de Distúrbios
Osteomusculares Relacionados ao Trabalho/Lesões por
Esforços Repetitivos (DORT/LER) neste tipo de atividade,
desde fatores ligados aos aspectos físicos e ambiente de
trabalho até aqueles ligados organização do trabalho e
tarefas realizadas.
A
detecção destas situações é um ponto de partida para
modificações nos postos de trabalho. As mudanças são
fundamentais para proporcionar um trabalho com maior
conforto e menor desgaste para o trabalhador, levando
assim a uma melhor produtividade.
Soluções
Para
encontrar soluções que resolvam ou minimizem problemas
relacionados aos DORT/LER é necessário conhecer o
processo de trabalho. Uma medida que pode ser adotada
são as pausas durante as jornadas. É possível também
fazer rodízio que contribui para que o trabalhador não
faça o mesmo tipo de movimento durante toda a jornada de
trabalho.
Não
existe uma medida padrão a ser seguida, uma alternativa
que usamos e se apresentou eficiente foi a formação de
"Grupos de reflexão sobre o Trabalho" com funcionários
de cozinha e seus chefes. A experiência foi excelente,
pois as soluções vieram dos próprios trabalhadores após
a reflexão e apropriação do conhecimento sobre a
dimensão dos problemas gerados por DORT/LER.
Ginástica e exercícios não constituem uma alternativa
que tragam impacto relativo à redução da incidência e
prevalência de DORT/LER. A redução das cargas de
trabalho relativas a movimentos repetitivos, esforços e
posturas, aliado a medidas que tornem o trabalho menos
estressante e mais agradável para os trabalhadores irá
trazer uma redução significativa neste processo de
adoecimento.
Autoras:
Maria de Fátima Ferreira Queiroz* e
Adriana Rodrigues Siqueira**
* Profª da Universidade
Metodista de São Paulo, Mestre e Doutoranda em Saúde
Pública-USP e Fisioterapeuta e Ergonomista do Centro de
Referência em Saúde do Trabalhador-Lapa-Sec. Municipal
de Saúde, PMSP.
**Profª do Centro
Universitário São Camilo, Terapeuta Ocupacional,
Acupunturista e Ergonomista do Centro de Referência em
Saúde do Trabalhador-Lapa-Sec. Municipal de Saúde, PMSP.
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